sábado, 9 de março de 2013

TREM NOTURNO PARA LISBOA - NACHTZUG NACH LISSABON







TREM NOTURNO PARA LISBOA
Pascal Mercier/ Peter Bieri,
Record, 6ª edição, 2010
Tradução: Kristina Michahelles



No princípio eram as trevas e elas habitavam Berna, eis que um vento sombrio, seguido de uma lufada, impede o salto do anjo Gabriel de uma ponte, já sem os sapatos e sem asas. Este, transmite a boa nova: A língua portuguesa.

Um trem. Um bilhete. Um destino inusitado. Um acaso. Uma ideia na cabeça. Um trem para Lisboa.


Com esta epifania nos sugere o autor embarcar com seu herói para o inusitado, em busca de si mesmo, a um tempo que não lhe pertenceu, movido pelo mote do imaginário livro “Um ourives das palavras”, Amadeu Inácio de Almeida Prado – Editora Cedros Vermelhos, Lisboa, 1975. Cuja resenha encontra-se, também, neste Blog no link: Um ourives das palavras.


Os “livros” seguem em dois comboios, paralelamente e lentamente, como lentamente deve seguir o trem, permanecendo em constante movimento e se possível nunca parar. Lentamente, também, ocorrem as mutações, perceptíveis, as vezes e outras não, ao nosso herói Gregorius.

Tecnicamente e estruturalmente o livro é perfeito, coeso e verossímil, Marcier o constrói, amarrado as possíveis referências do enredo, fecha as possíveis indagações, pois as cita, tais como “O livro do desassossego” – Bernardo Soares – semi-heterônimo de Fernando Pessoa.  

  

O exercício que fiz, foi ler inicialmente “Trem noturno para Lisboa” e depois ler separadamente “Um ourives das palavras”. Lidos isoladamente têm-se uma percepção diferente, o primeiro escrito com tintas germânicas glaciais e o segundo escrito com tintas ibéricas viscerais. Proeza louvável. Como se um  semi-heterônimo de Peter Bieri o fizesse. 
Tintas essas, de percepções de mundos diferentes,  revelam personagens exaustos,  a impotência de ação diante do acaso a que estão destinados, a de serem os fiéis depositários de vidas alheias, vergados diante do passado político, como os portadores da doença de Bechterew. O peso de si e do coletivo. Não se sabe o que é pior:  o pessimismo ibérico ou  a frieza alpina. 


Por analogia, Gregorius tem como conselheiro um oftalmologista, além dos exames de refrações, este, sempre lhe indicava o caminho, até encontrar outro oftalmologista que lhe deu novos óculos a fim de ver, claramente, o que antes não via.

Nem sempre, um canivete e um relógio - ambos suíços, úteis e precisos -, têm utilidade, principalmente quando o problema a ser solucionado não carece de tais ferramentas.


O destino final Berna, a bordo do "Trem soturno para Berna", suscitará outro mote: “Le silence du monde avant les mots” - O silêncio do mundo antes das palavras -, nosso fiel escudeiro volta à Berna, com um conceito diferente da palavra 'glória' que uma vez dita em português não há igual.
Quer conhecer uma pessoa? Viaje com ela.


Bem-vindos a bordo. Vale a leitura.  

Um comentário:

  1. E eis que o seu riquíssimo comentário nos remete a outra viagem, Célio: estamos aguardando o seu livro, que nos fará embarcar em outra viagem literária. Parabéns!

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