quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

UM OURIVES DAS PALAVRAS


UM OURIVES DAS PALAVRAS
Amadeu Inácio de Almeida Prado,
Editora Cedros Vermelhos, Lisboa, 1975.


Caetano Veloso ensina a todos os amantes da língua portuguesa:

"Se você tem uma ideia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão"


(em alemão)"Wenn Sie eine tolle Idee
Am besten ist es, einen Song zu machen,
Es ist erwiesen, dass es nur möglich ist,
Deutsch Philosophieren "

Sem a intenção de desmerecer "Trem noturno para Lisboa", de Pascal Mercier/Peter Bieri, - cuja resenha já postei também neste blog -, pedi ao amigo ilustrador Carlos BG uma capa para o livro "Um ourives das palavras", epifania e mote para uma suposta viagem a Lisboa.

Realizei o exercício contrário, após a leitura de Trem noturno para Lisboa, separei somente os textos do suposto médico/escritor Amadeu Inácio de Almeida Prado e segui seu itinerário, o livro mostrou-se um verdadeiro  mosaico com referências e/ou inspirações de autores já conhecidos, não trata-se de plágio, - penso -,  mas sim de inspiração,  há momentos de não saber se estamos lendo Carta a meu pai; de Franz Kafka, O livro do desassossego;  - do semi-heterônimo Bernardo Soares - de Fernando Pessoa, e O lobo da estepe; de Hermann Hesse. 

Afinal as dores humanas são de todos, cada qual com sua particularidade,  delineadas em sentimentos semelhantes, logo, inspirações semelhantes.
Tem o livro uma pegada reflexiva, com um traço marcante de "Pessoa" em suas divagações, - de uma suposta afirmação para uma sequência de cinco ou seis indagações-, sem esgotar totalmente a prosa poética contemplativa da vida.

A culpa, a eterna culpa, de si, dos outros, do acaso - jamais do destino -eternamente perseguindo os sonhos dos homens, estão presentes na passagem da vida, paixões, convicções, amores das personagens, cujas vidas dão uma ópera-fado.

Pontuo uma passagem do livro;  em que Amadeu diante de uma montra/vitrine, contempla refletidos, a si e a outro homem. Uma montra/vitrine. Numa rua do Chiado. Estaturas, vestimentas, oxigênio e comoção enlaçam o lusco-fusco de seus reflexos.

Exercício digno de um poeta que espreita de uma janela, numa sobreloja de um sobrado,  a descrever a cena. Como a locação é no Chiado, não me vem outro senão o "Fernando Pessoa" a descrevê-la. Seria Amadeu o elo perdido entre os heterônimos de "Fernando Pessoa"?
Se assim o é, mérito é para o Pascal Mercier/Peter Bieri, que "fechou o cerco de Lisboa".

Vale a leitura.

* No filme "Trem noturno para Lisboa", não contempla nem 10% do livro, como sempre filmes não refletem a obra literária. Porém, vale a pena ver o filme e vice-versa.  

26 comentários:

  1. Célio, a isto chamo de uma leitura completa. Você não somente leu o "Trem noturno para Lisboa", como, também, sorveu palava por palavra, dando a elas um encadeamento semântico que o remeteu às obras citadas. E penso se não é também isso que fazem os escritores. Armazenando tantas leituras na mente até gerar a sua história. Muito bom!

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    1. Fátima, gostei tanto de seu comentário quanto da sinopse do Célio

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  2. ´Vi o filme e gostei imenso. O livro "O Ourives das palavras" existe mesmo? Se sim, como o pederei obter? Obrigada

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  3. Não, o livro não existe, o que fi\z como relato no post, é somente um exercício de leitura.
    Dei somente a capa ao livro concebida por mim e executada pelo designer CARLOS BG.
    Boas leituras.
    Célio

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  4. Excelente resenha de palavras.
    Continuação de boas leituras!

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  5. Muito bom.. Tanto o filme como as conclusões que tiras dele, e deixo aqui desde já a pergunta, como é que estrangeiros conseguiram exprimir melhor que nós, portugueses, os medos e horrores passados na época da ditadura.. Muito bom mesmo.. Ao ponto de ter visto o filme à pouco e já estar mortinho por vê-lo de novo.. Vale bem a pena..

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    1. Caro Nuno,
      Não é somente exprimir-se ou expressar-se melhor, me deparo, as vezes com olhares estrangeiros do Brasil, e, a mim, são contundentes. Certa feita um italiano falava das belezas do Brasil e concluía: "Aqui o céu e o inferno estão no mesmo lugar". Fui a nocaute.
      As ditaduras são iguais só mudam de cenário e de pares. Tivemos a nossa de 30 a 45 e de 64 a 84. Confesso invejamos o 25 de Abril, não o resultado mas os princípios do MFA. Num mesmo 25 de abril, só que em 1984 - dez anos após o vosso 25 de abril - tivemos uma votação no Parlamento -(Congresso aqui no Brasil)- e uma emenda constitucional (Dante de Oliveira) que previa eleições diretas para presidente da república, fui tomado por um certo êxtase da coincidência das datas - Ruth Escobar, atriz portuguesa que atuava no Brasil chamou a atenção para essa coincidência - comprei um cravo nesse dia, porém sem êxito.
      Para muitos imigrantes, como meus pais, conclui-se que não eram imigrantes, mas sim exilados, privados de seu céu e seio materno. O leitmotiv e a recorrência. A saga da queixa era comum: "Salazar não nos deixava trabalhar". Simples, como simples são os aldeões. Até recentemente tínhamos em Portugal um sem número de imigrantes, talvez tenham expressado algo semelhante aos velhos imigrantes do Brasil.
      Minha conclusão é um olhar de interesse pela mátria língua, nossa verdadeira pátria.
      Aquela que nos rege e nos torna tão singulares. Há que pensar, há que falar e há o que mudar.
      Finalizando, Arnaldo Antunes, compositor brasileiro, nas comemorações dos 500 anos de achamento e/ou descobrimento do Brasil, disse o seguinte: "Não me vejo pensando em outra língua a não ser na língua portuguesa". De tão próxima -(a língua)- a queríamos nossa. Frase que referi neste blog a cerca de Fernando Pessoa no post "O livro do desassossego". Ama-se o que se conhece.
      Bem Haja!

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  6. Fátima, gostei tanto do seu comentário quanto da sinopse do Célio.

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  7. Nossa, adorei a forma como você postou o suposto livro, com enfoque em algumas parte, citando os autores. Muito bom!!! Parabéns!!!

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    1. Obrigado Tania,
      O autor - Pascal Mecier - realiza um trabalho execelente em sua abordagem, aglutina, de certa forma, as obras em questão e traz a tona um outro personagem - Amadeu - verossímel e apaixonante. Certamente tem seu valor, principalmente num momento em que a literatura mundial não tem um DNA, ofuscada e pálida. O encantamento humano e reflexivo, com certeza sempre nos remeterá a epifanias, vide Miguel de Cervantes que nos dá em Dom Quixote todas as pistas da saga humana. Pode ser a pé, a cavalo ou num trem.
      Abraços e boas leituras.

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  8. Is there any way i can get this book in English, I have seen a movie related to this book "Night Train to Lisbon"
    and i felt interesting to read it. my email: oceandives@gmail.com

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    1. The book doesn't exist, I suggest you read the book "Night Train to Lisbon" and separate the text assigned to the supposed doctor Amadeu Prado. Remember Amadeu does not exist.

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  9. Olá.. Tudo bem ? Sra Fátima onde encontro um exemplar desse livro!? Um ourives das palavras

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  10. assiti o filme hoje a tarde, como muitos me indentifiquei, a ponto de procurar a respeito do livro, pois alem de amante da literatura classica, tambem sou amante do cinema de arte, fiquei muito curioso, vou procurar mais à respeito, bela resenha. Obrigado!

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  11. do you have the book "um ourives das palavras" please.. i really want to read it...

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  12. The book doesn't exist, I suggest you read the book "Night Train to Lisbon" and separate the text assigned to the supposed doctor Amadeu Prado.

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  13. hola hablo solo español, soy de Uruguay. Me encantó la pelicula y por lo que entiendo el libro no existe, Que pena enorme. Me conmovieron mucho las palabras del supuesto libro Um ourives das palavras. Y desearía leerlo de inicio a fin. Obrigado

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  14. Então o livro não existe? Uma pena!

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  15. Estou vendo o filme. A curiosidade me levou ao Google. Fiquei deveras impressionado com determinadas frases as quais se aplicam atualmente no Brasil. Uma em especial, "Quando a ditadura é um fato, a revolução é um fevereiro...

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  16. Nasci em 1940 no Rio de Janeiro. Aos 18 anos, minha madrinha, que havia voltado de Portugal, contou-me de um primo que coitado: Havia lhe dado para ser comunista e desapareceu.
    Minha madrinha nunca pronunciou, nem no Brasil, as palavras PIDE e Salazat.

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  17. Lindo filme. Pena o livro não existir. Orlandy Corrêa Neto

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  18. Gostei do filme ,mas gostaria de ler o livro do Ameida Prado Como não existe vou tentar achar Trem noturno para Lisboa! será que existe?

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